Tédio infantil: por que o adulto não precisa preencher todo o tempo
“O tédio não é ausência de aprendizagem. Por vezes, ele é um espaço precioso, em que a criança organiza suas experiências, estabelece conexões e dá significado ao que viveu. É nesse tempo de aparente pausa que a imaginação ganha espaço, a criatividade chega e novas descobertas começam.Nem toda aprendizagem é visível aos olhos do adulto. Há um intenso trabalho acontecendo no interior da criança.Por isso, o tédio também se faz necessário.” — Miss Talita Costa
“Não tenho nada para fazer.”
Quando uma criança diz que está entediada, é comum que os adultos recebam essa frase quase como um pedido de ajuda. Rapidamente surgem sugestões, brinquedos, atividades, passeios, desenhos ou uma tela capaz de ocupar aquele intervalo.
Queremos que a criança esteja bem, interessada e envolvida. Também nos acostumamos a interpretar o tempo aparentemente vazio como um tempo desperdiçado.
Mas será que todo momento precisa ser preenchido?
A importância do tédio não está no desconforto em si, mas no espaço que se abre quando o adulto não se apressa em eliminá-lo. É nesse intervalo que a criança pode perceber o que sente, procurar algo que desperte seu interesse e começar a agir a partir de uma iniciativa própria.
O que chamamos de tédio?
Na psicologia, o tédio costuma ser definido como a experiência de querer se envolver em algo satisfatório, mas não conseguir encontrar, naquele momento, uma forma de fazê-lo.
Isso significa que uma criança pode estar cercada de brinquedos, livros e propostas e, ainda assim, dizer que não tem o que fazer.

O que falta nem sempre é uma atividade. Às vezes, falta conexão com aquilo que está disponível. Em outras situações, a criança está cansada, sobrecarregada ou diante de algo que parece fácil demais, difícil demais ou pouco significativo.
O tédio aparece como um sinal de que a forma atual de envolvimento deixou de funcionar. A partir daí, algo precisa mudar. A criança pode abandonar uma ideia, observar o ambiente, experimentar outra possibilidade, inventar uma brincadeira ou pedir ajuda.
Quando o adulto oferece imediatamente uma solução pronta, esse pequeno processo é interrompido antes mesmo de começar.
O que acontece quando a resposta não chega pronta?
Há uma diferença importante entre abandonar a criança em seu desconforto e permitir que ela tenha tempo para encontrar um caminho.
O adulto continua presente. Escuta, reconhece o sentimento e observa. O que muda é a urgência de oferecer entretenimento.
Nesse espaço, a criança precisa começar a se perguntar, ainda que não formule essas perguntas em palavras: o que eu quero fazer? O que me interessa agora? O que posso criar com aquilo que tenho?
É justamente esse movimento que a Miss Samara Teixeira observa:
“O tédio é importante porque oferece à criança a oportunidade de se escutar. Quando não há uma atividade dirigida ou um estímulo imediato, ela precisa olhar para dentro e se perguntar: ‘Do que eu tenho vontade? O que desperta minha curiosidade? O que posso criar?’. Esse processo fortalece o autoconhecimento, a autonomia e a capacidade de fazer escolhas a partir dos próprios interesses, e não apenas reagir ao que o ambiente oferece.”— Miss Samara Teixeira
Escolher uma ação, iniciá-la e sustentá-la exige um conjunto complexo de habilidades. A criança precisa formular uma ideia, organizar seus passos, lidar com tentativas que não funcionam e decidir se deseja continuar, adaptar o plano ou procurar outra coisa.
São experiências cotidianas, muitas vezes discretas, que mobilizam iniciativa, flexibilidade e autorregulação.
Infográfico: o que pode nascer de uma pausa?

O aprendizado não acontece por causa do desconforto, mas pela oportunidade de construir uma resposta própria para ele.
Tempo menos dirigido e função executiva
As pesquisas sobre infância ainda não permitem afirmar que o tédio, sozinho, produz benefícios cognitivos. As evidências mais consistentes estão relacionadas ao que pode surgir quando a criança dispõe de tempo menos estruturado e oportunidades reais de escolha.
Um estudo realizado com 70 crianças de 6 e 7 anos encontrou uma associação entre passar mais tempo em atividades menos dirigidas e apresentar melhor função executiva autodirigida.
A função executiva está envolvida na capacidade de definir objetivos, organizar ações, controlar impulsos, adaptar estratégias e conduzir o próprio comportamento. No estudo, as crianças com mais tempo menos estruturado demonstraram maior habilidade para orientar suas ações sem depender de instruções externas o tempo todo.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo encontrou uma associação, não uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, o resultado traz uma reflexão importante: crianças também precisam de oportunidades para decidir o que fazer e como fazer. Essas habilidades não se desenvolvem apenas ouvindo orientações; precisam ser exercitadas. Leia o estudo publicado na Frontiers in Psychology.
Outro estudo longitudinal acompanhou uma ampla amostra de crianças australianas dos primeiros anos até a idade escolar. Os resultados indicaram que um maior tempo dedicado a brincadeiras livres e tranquilas durante a primeira infância estava relacionado a uma melhor autorregulação anos depois. Acesse o estudo sobre brincadeira livre e autorregulação.
Esses dados não indicam que devamos provocar o tédio ou retirar da criança experiências enriquecedoras. Eles reforçam a importância de preservar tempos nos quais toda ação não tenha sido previamente escolhida e organizada pelo adulto.

O tédio deixa a criança mais criativa?
Essa associação precisa ser feita com cuidado.
Experimentos realizados com adultos encontraram indícios de que atividades monótonas podem favorecer a produção de ideias mais criativas em determinadas condições. Em um dos estudos mais citados, 170 participantes foram distribuídos em dois experimentos. Alguns realizaram tarefas repetitivas antes de participar de uma atividade criativa e, em certos cenários, apresentaram respostas mais originais.
Uma das hipóteses é que tarefas pouco exigentes permitem que o pensamento se afaste do foco imediato e explore outras conexões. Conheça o estudo de Mann e Cadman.
Isso não significa, porém, que toda criança entediada se tornará mais criativa. Grande parte desses experimentos foi realizada com adultos, e uma revisão publicada em 2024 concluiu que a relação entre tédio e criatividade em contextos educacionais ainda apresenta resultados variados. Leia a revisão publicada pela British Educational Research Association.
Uma maneira mais precisa de compreender essa relação é reconhecer que o tédio pode criar uma pausa favorável ao surgimento de novas ideias. O que a criança fará com essa pausa dependerá de sua idade, de seus recursos internos, do ambiente e da forma como os adultos respondem.
A criatividade não nasce automaticamente do vazio. Ela precisa encontrar tempo, segurança e possibilidades para se manifestar.
Quando a tela se torna a resposta para qualquer intervalo
Esperar no restaurante, enfrentar o trânsito, acompanhar um adulto em um compromisso ou permanecer em casa sem uma atividade planejada são situações que podem trazer incômodo.
As telas oferecem uma solução rápida e eficiente. Capturam a atenção e fazem o tempo passar com menos reclamações. O ponto de atenção aparece quando elas se tornam a resposta automática para qualquer espera, frustração ou sinal de desinteresse.
Em uma orientação sobre telas na primeira infância, o UNICEF afirma que as crianças precisam de tempo para processar os estímulos que recebem.
A instituição também destaca que momentos de tédio podem oferecer oportunidades para lidar com a frustração e exercitar o controle dos impulsos. Quando a estimulação é contínua, a criança encontra menos ocasiões para procurar outras formas de brincar, interagir ou ocupar o próprio tempo. Leia a orientação do UNICEF.
A discussão não precisa colocar a tecnologia no lugar de vilã. As telas fazem parte da vida contemporânea e podem ter diferentes funções. O convite é para perceber quando elas estão substituindo todas as pausas que poderiam ser vividas de outras maneiras.
Como acolher uma criança que diz estar entediada?
Não é necessário ignorar a criança, responder com irritação ou transformar o tédio em uma prova de independência.
O adulto pode acolher sem assumir imediatamente a responsabilidade de produzir uma atividade:
“Entendo. Às vezes, demora um pouco até encontrarmos algo que queremos fazer.”
“Você ainda não descobriu o que gostaria de fazer agora.”
“Vamos olhar o que está disponível?”
“Você quer pensar sozinho ou precisa de uma pequena ajuda para começar?”
Para as crianças menores, essa ajuda pode ser mais concreta. O adulto pode aproximar dois materiais, iniciar uma ação simples ou convidar a criança a observar o ambiente. Depois, recua novamente para que ela participe da construção da brincadeira.
Crianças mais velhas podem se beneficiar de mais tempo para pensar antes que as sugestões apareçam. Em vez de oferecer uma lista completa, o adulto pode devolver a pergunta: “O que você acha que poderia fazer?”.
Também vale observar como o ambiente está organizado. Muitos brinquedos misturados, materiais inacessíveis ou excesso de estímulos podem dificultar a escolha. Um ambiente simples, ordenado e adequado à autonomia infantil torna as possibilidades mais visíveis.

Nem todo tédio deve ser romantizado
O tédio pontual é diferente de uma dificuldade persistente de se envolver com qualquer atividade.
Quando uma criança demonstra desinteresse frequente, apatia, irritação intensa, sofrimento, dificuldade constante para começar ou sustentar brincadeiras, o comportamento merece uma observação mais cuidadosa.
O tédio recorrente pode estar relacionado ao cansaço, à sobrecarga, à falta de desafio, à ausência de sentido, a dificuldades de atenção ou à necessidade de apoio para iniciar uma ação. Também pode aparecer de maneira diferente em crianças neurodivergentes.
Um estudo publicado em 2025, com 183 crianças e adolescentes entre 9 e 16 anos, encontrou níveis mais altos de propensão ao tédio, aversão à espera e desatenção entre participantes com TDAH. Os próprios autores deixam claro que os resultados mostram associações e não permitem concluir que um fator cause o outro. Consulte o estudo na Frontiers in Psychiatry.
Por isso, dizer que “o tédio faz bem” é insuficiente. É preciso considerar sua frequência, sua intensidade, o contexto em que aparece e os recursos de cada criança.
A presença do adulto continua sendo essencial
Permitir uma pausa não significa se afastar emocionalmente.
O adulto prepara o ambiente, oferece segurança, estabelece limites e permanece disponível. Ao mesmo tempo, reconhece que não precisa conduzir cada minuto da experiência infantil.
Essa postura exige observação e confiança. Em alguns momentos, a criança encontrará uma ideia. Em outros, precisará de ajuda. Também poderá descobrir que deseja simplesmente descansar, acompanhar o movimento ao redor ou permanecer quieta por um tempo.
Nem toda aprendizagem será imediatamente visível. Enquanto parece não estar fazendo nada, a criança pode estar elaborando o que viveu, percebendo seus interesses e se preparando para um novo movimento.
Quem sabe este seja o maior desafio para os adultos: suportar por alguns instantes a ausência de uma resposta pronta.
Quando não corremos para ocupar todos os espaços, damos à criança a oportunidade de descobrir que ela também pode preenchê-los.
Nem todo tempo precisa ser preenchido, dirigido ou transformado em uma atividade. Algumas pausas também fazem parte do desenvolvimento. Isso vale também para nós, adultos.
Quando o tédio é acolhido sem se apressar em oferecer uma solução, a criança ganha tempo para observar, escolher, experimentar e descobrir novas formas de se envolver com o mundo.
Da próxima vez que você ouvir “não tenho nada para fazer”, talvez valha esperar um pouco antes de responder. O que parece um espaço vazio pode ser justamente o começo de uma nova descoberta.
E por aí, como você costuma reagir quando uma criança diz que está entediada? Compartilhe este texto com outras famílias e educadores que também possam se interessar por essa reflexão.
–––
Siga a @mangalo.montessori no Instagram e acompanhe nosso canal no YouTube para descobrir mais sobre uma forma diferente de aprender e viver a infância.
Quer conversar com a nossa equipe e conhecer de perto o método Montessori?







Comentários