Como lidar com o erro dos filhos: por que ele não deveria ser motivo de punição
- Comunicação Mangalô

- 23 de jun.
- 4 min de leitura
Tem uma cena que se repete em quase toda casa com criança pequena: o suco derrama, o desenho "sai errado", o cadarço não amarra... E, no segundo seguinte, vem a reação do adulto: às vezes um suspiro, às vezes um "ai, de novo isso"... às vezes um silêncio que diz mais do que qualquer palavra.
A gente nem sempre percebe, mas é exatamente nesse segundo que a criança está aprendendo algo. Só que não é sobre o suco, o desenho ou o cadarço, e, sim, sobre o que fazer quando algo não dá certo.

O erro ensina muito mais do que parece
Quando uma criança erra, ela não está aprendendo apenas matemática, português ou a amarrar os próprios sapatos. Ela está construindo, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o que significa errar e essa narrativa nasce, em grande parte, das reações dos adultos ao redor dela.
É aqui que mora o ponto mais importante: o erro em si raramente é o problema. O problema é a mensagem que a criança absorve depois dele.
Se toda vez que ela erra alguém critica, ela aprende que errar é perigoso. Se alguém corrige na hora, antes mesmo de ela tentar de novo, ela aprende que não consegue sozinha. E se alguém simplesmente resolve por ela, ela aprende que desafios são coisa dos outros, não dela.
Mas existe um outro caminho. Quando a criança encontra espaço para tentar de novo, sem pressa e sem julgamento, ela aprende algo bem diferente: que errar não é o fim. É parte do caminho.
Por que isso importa tanto na primeira infância
Pode parecer um detalhe pequeno do dia a dia, mas a forma como uma criança lida com o erro hoje tende a moldar como ela vai lidar com frustração, risco e fracasso na vida adulta.
Faz sentido: a vida adulta é cheia de tentativas. Empregos que não dão certo de primeira, relacionamentos que exigem ajuste, projetos que precisam ser refeitos, decisões que se revelam erradas, mudanças que assustam antes de fazer sentido.
Quem cresce com medo de errar costuma carregar esse medo para todas essas áreas, e muitas vezes acaba evitando tentar, por puro medo da reação que vai receber (a própria, inclusive).
Por isso, dentro da pedagogia Montessori, existe um cuidado especial com esse momento.
Não porque o erro seja bonitinho ou deva ser ignorado, mas porque ele é, de fato, uma das ferramentas mais poderosas de aprendizagem que existem... desde que a criança tenha espaço seguro para passar por ele.
Vale lembrar de um ponto importante aqui: pessoas resilientes não são as que erram menos. São as que aprenderam a continuar depois do erro. E essa habilidade se constrói — ou se trava — ainda na infância.

O que isso parece, na prática, dentro da sala
Conversamos com duas de nossas educadoras, a Marília (Preschool) e a Daniely (Elementary), sobre como elas lidam com esse momento dentro da sala , porque na teoria é fácil falar em "dar espaço", mas na prática isso exige observação, paciência e, muitas vezes, segurar a vontade de intervir.
A Marília descreve o processo assim:
"Antes de classificar algo como erro, eu observo a criança: ela está investigando, testando, é natural que derrame ou não saia como o esperado. Quando percebo dificuldade real, eu me aproximo e apresento de novo o projeto ou a atividade. Mas quando vejo que ela ainda está no processo de investigação, deixo que experimente, até se sentir segura. Eu não vejo isso como erro — vejo como processo" – Miss Marília, Preschool.
Essa última frase resume bem a virada de chave que propomos: trocar a lente do erro pela lente do processo. O que parece "errado" de fora é, na maioria das vezes, a criança ainda no meio do caminho de entender como aquilo funciona.
A Daniely segue uma lógica parecida, com um detalhe importante sobre tempo:
"Eu apresento o trabalho e observo como a criança vai conduzir. Quando aparece um erro, eu espero — às vezes apresento de novo só em outro dia — até que ela realmente se aproprie da atividade. O erro faz parte do processo de aprendizagem, sem dúvida." - Miss Daniely, Elementary
Note que nenhuma das duas fala em corrigir no calor do momento. Ambas descrevem o mesmo movimento: observar primeiro, e só depois, em outro momento, com calma, apresentar de novo. Essa pausa é o que dá à criança a chance de chegar à própria conclusão, em vez de receber a resposta pronta.
E não é por acaso que isso se repete em duas faixas etárias diferentes da escola: da Preschool ao Elementary, o princípio é o mesmo, só a forma de aplicar é que muda.
O que os pais podem levar para casa
A boa notícia é que esse princípio funciona fora da sala de aula exatamente da mesma forma. Não é preciso ser educador Montessori para aplicar isso em casa, é preciso, principalmente, resistir ao impulso de corrigir ou resolver na hora.
Algumas perguntas simples ajudam nesse processo, no momento em que o erro aparece:
Essa situação é perigosa, ou só desconfortável de assistir?
Meu filho está pedindo ajuda, ou só processando em silêncio?
O que eu quero que ele aprenda agora: a fazer certo, ou a tentar de novo?
Às vezes, a melhor ajuda não é corrigir. É permanecer por perto enquanto a criança descobre.
E vale lembrar: seu filho não precisa aprender a evitar erros. Ele precisa aprender que é capaz de enfrentá-los. São coisas bem diferentes, e só a segunda prepara para a vida.
Uma pergunta para fechar
Antes de aplicar qualquer coisa com seu filho, vale uma pausa para olhar para dentro: que mensagem sobre o erro você recebeu quando era criança? Alguém te deu espaço para tentar de novo, ou você aprendeu que errar era motivo de vergonha?
Boa parte de como reagimos hoje aos erros dos nossos filhos é repetição daquilo que vivemos. E só de perceber isso já é possível escolher diferente.
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